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1º Ciclo de Cinema e Política

### 1º Ciclo de Cinema e Política – Razões de Estado e Qualidade da Democracia – no Museu da Imagem e do Som de São Paulo Entre os dias **04 de março e 09 de abril de 2013**, uma seleção dos filmes de temática política mais marcantes do momento serão exibidos e debatidos no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. É uma realização do Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas da USP (NUPPs) e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da Universidade de São Paulo. Sob a coordenação do cientista político José Álvaro Moisés e curadoria do crítico Luciano Ramos, o evento recorre ao cinema contemporâneo para discutir temas bem atuais como o controle da sociedade pelos governos; a escalada da corrupção e sua ligação com o crescente poder dos aparelhos repressores; a presença continuada da censura e demais obstáculos ao direito à informação. O ciclo faz parte do projeto de pesquisa que o NUPPs vem desenvolvendo, em torno da avaliação dos 25 anos de democracia no Brasil. Após a exibição dos filmes em sessões abertas ao público, acontecem os debates com a participação de pesquisadores e de jornalistas especializados em política. A proposta é aportar diferentes pontos de vista para a análise dos problemas por eles abordados. Foram escolhidos seis títulos de longa-metragem, produzidos em sua maioria a menos de cinco anos, e já lançados no mercado de salas de cinema. Alguns deles, inclusive, merecem reavaliação porque permaneceram pouco tempo em cartaz, tendo passado quase despercebidos pelas plateias mais amplas. Pretendemos trazê-los de volta à atenção, tanto da mídia quanto do público interno da USP e externo à universidade, por meio das discussões e polêmicas que poderão estimular. Os debates serão gravados, com vistas a uma eventual publicação. **Local das exibições e debates:** Museu da Imagem e do Som – SP Avenida Europa 158 – São Paulo – CEP 01449 – tel: (11) 2117-4777 Os filmes também serão exibidos no CINUSP em horários alternativos. **Datas:** * **MIS:** 05, 12, 19 e 27 de março e 02 e 09 de abril – das 19h00min às 22h00min. * **CINUSP:** 04, 13, 18 e 26 de março e 01 e 08 de abril – às 12h30min. **Entrada franca** **Títulos escolhidos:** 1. O exercício do poder (2012) de Peter Schöller – dia 05/03 no MIS e 04/03 no CINUSP 2. Intrigas do estado (2009) de Kevin MacDonald – dia 12/03 no MIS e 11/03 no CINUSP 3. Tudo pelo poder (2011) de George Clooney – dia 19/03 no MIS e 18/03 no CINUSP 4. Leões e cordeiros (2007) de Robert Redford – dia 27/03 no MIS e 26/03 no CINUSP 5. Tropa de elite 2 (2011) de José Padilha – dia 02/04 no MIS e 01/03 no CINUSP 6. Sob a névoa da guerra (2004) de Errol Morris – dia 09/04 no MIS e 08/03 no CINUSP

**O EXERCÍCIO DO PODER** L’exercice de L’État (França - Bélgica – 2012 - 112 min. 16 anos) Direção de Pierre Schöller, com Michel Blanc e Oliver Gourmet. César de Melhor Coadjuvante para Michel Blanc; prêmio Fripesci em Cannes; melhor filme pelo Sindicatos dos Críticos da França. **SINOPSE** O cotidiano de um ministro da República Francesa revela a multiplicidade de conflitos envolvidos na atividade de quem exerce uma função de governo num sistema democrático. Além das contradições internas do poder executivo, que reflete os atritos entre os integrantes do partido majoritário, destacam-se os embates com os demais poderes e – o que é pouco comum no cinema político – as asperezas e ambiguidades no relacionamento entre os detentores de cargos políticos ou eletivos e os funcionários de carreira, ou seja, os gestores profissionais do estado. **COMENTÁRIOS** O protagonista é um ministro dos transportes do governo francês atual que, logo no início do filme, visita a cena de um acidente de ônibus no qual várias crianças tinham morrido. Como a televisão deverá entrevistá-lo, a assessora de imprensa tem o cuidado de pedir ao prefeito local que lhe empreste a gravata, porque ela combina melhor com o terno que estava usando. Pode parecer o cúmulo da hipocrisia, mas vemos que, de fato, o governante fica comovido com o desastre e faz um pequeno discurso emocionado diante das câmaras. Ao terminar, ele comenta com a assessora que não gostou de determinada frase do pronunciamento. Ficamos com a dúvida: tudo aquilo não passava de uma encenação eleitoreira, ou ele se importava de verdade com as pessoas? Em seguida, porém, percebe-se que as duas opções estão igualmente corretas e, parecido com o poeta de Fernando Pessoa, o político “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. A passagem aponta para um procedimento que o diretor e roteirista Pierre Schöller retoma diversas vezes, porque sua meta é expor as ambiguidades do Estado e de quem trabalha dentro dele e para ele. Não aborda direta ou intensamente nenhuma dessas mazelas mais conhecidas do público sul americano, como a corrupção, o abuso do poder ou a manipulação das informações. Premiado pelo César que é o equivalente francês do Oscar, o roteiro original se concentra na esquizofrenia dos conflitos internos no seio dos gabinetes e dos partidos. E no frenesi que leva à mudança constante de políticas e de cargos, para acompanhar as oscilações da opinião pública – a contrastar com a tendência à inércia de uma máquina estatal alicerçada e erguida no tempo da monarquia absolutista. Essa contradição se manifesta no íntimo do protagonista, interpretado com maestria pelo belga Oliver Gourmet, que fora premiado em Cannes por seu trabalho em “O Filho” (2002), dos irmãos Dardenne – que, aliás, produziram este “O exercício do poder”. Ele se imagina como um tigre, sempre disposto a trucidar os inimigos sem hesitação, mas num sonho, se identifica com um predador diferente: o crocodilo, cujo único esforço é escancarar a boca para devorar a presa entregue voluntariamente ao seu apetite. Ora felino, ora reptil, quando se descuida, o personagem deixa que a humanidade se manifeste dentro de si e chora ao morrer um humilde colaborador, vomita ao se lembrar dos mortos no acidente, se embebeda junto com o seu motorista e abraça o chefe de seu gabinete como se fosse um amigo de infância. É na relação com este funcionário que reside um dos aspectos mais interessantes da trama, enquanto retrato cinematográfico da dinâmica estatal naquele país. Interpretado pelo veterano Michel Blanc que ganhou o César por esta atuação, esse burocrata encarna a mecanicidade da estrutura política. Essa dicotomia que separa os agentes governamentais entre servidores públicos concursados e os ocupantes de cargos eletivos ou “de confiança” também acontece entre nós.
**INTRIGAS DE ESTADO** State of Play (EUA / UK – 2009, 127 min. 14 anos) Direção de Kevin MacDonald, com Russel Crowe, Ben Affleck, Helen Mirren, Rachel McAdams e Jeff Daniels. Melhor ator para Russel Crowe, pelo Instituto Australiano do Filme Refilmagem de uma minissérie inglesa de Paul Abbot agraciada com o Prêmio Edgar Allan Poe, premiada pelo BAFTA e pela Royal Television Society em 2004 **SINOPSE** A trama narra um caso de tentativa de manipulação de um órgão da grande imprensa por um senador dos Estados Unidos. De forma por vezes insidiosa e outras vezes direta, o filme mostra como esse papel de controle se manifesta por meio das relações de poder. Mesmo afetadas, neste caso as instituições democráticas são visíveis sob a forma de personagens individuais: o protagonista é um repórter que tenta exercer o seu ofício, apesar das dificuldades pessoais e das limitações enfrentadas pela empresa jornalística para quem trabalha. **COMENTÁRIOS** Sob a aparência de um enredo de suspense premiado pela associação de escritores americanos de mistério, em que um jornalista reedita a figura do típico (anti) herói do drama policial dos anos 1940, o chamado film noir, estamos diante de uma obra estruturada sobre as limitações ao direito à informação que ainda se manifestam – mesmo em países que se consideram democráticos. O filme não se aprofunda na mecânica da ilegalidade governamental de maneira geral, mas tece uma trama muito bem informada e esclarecedora das suas ligações com as diversas esferas da sociedade americana. E, além disso, apresenta um modo pelo qual a imprensa poderia enfrentar um arranjo montado por corruptos de dentro e de fora do estado. O protagonista é um repórter veterano interpretado por Russell Crowe. Ele investiga o assassinato da assistente de um congressista vivido por Ben Affleck e que, por acaso, é seu amigo de juventude. Aliás, o desenho desse jornalista neste filme não mistifica a profissão, ou seja, não tenta atribuir-lhe um charme que ela de fato nunca teve, e o coloca sempre pressionado: pelos superiores, como a editora Helen Mirren (preocupada com as vendas) e pelos subordinados, como a redatora novata Rachel McAdams, que adoraria ocupar-lhe o espaço na publicação. Aos pouco ele começa a entrelaçar pistas que o levam a um esquema corporativo montado por políticos, lobistas e assassinos. Quando, porém, o jornalista se aproxima da verdade, ele precisa decidir entre arriscar o emprego e a vida ou se render às conveniências do sistema. O filme é dirigido pelo competente Kevin MacDonald de “O Último Rei da Escócia”, mas o elemento criativo da equipe é o hábil escritor Tony Gilroy, do já clássico “O Advogado do Diabo”. Este é o seu trabalho mais recente como roteirista e traz em sua carne as cicatrizes ainda abertas da realidade presente. O filme termina com imagens de uma rotativa imprimindo um jornal, mostrando que a trama toda acabou estampada em suas páginas. “Intrigas de Estado” pode ser visto como uma homenagem ao jornalismo e uma escolha ética e estética de elaborar ficção a partir do que se publica (ou deveria ser publicado) nos jornais.
**TUDO PELO PODER** The Ides of March (EUA, 2011, 102 min. 12 anos) Direção de George Clooney, com Ryan Gosling, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Phillip Seymour Hoffman, Paul Giamatti e George Clooney. Melhor roteiro pelo Instituto Australiano do Filme; Melhor filme pela National Film Board (USA); detentor do Prêmio Brian do Festival de Veneza para o melhor filme em favor da democracia e direitos humanos. **SINOPSE** Uma campanha eleitoral vista pelo lado de dentro é o que este drama nos oferece, com todos os percalços que ela pode sofrer numa sociedade democrática, mas complexa como os Estados Unidos. O roteiro assume a aparência de uma “fábula moral”, em que um assessor de um candidato à presidência precisa decidir se sucumbe à próprias ambições profissionais ou se preserva a integridade de sua alma. Em lugar de Mefistófeles que produzia as tentações de Fausto, temos aqui Maquiavel sob a forma de vários personagens. **COMENTÁRIOS** O filme é um admirável trabalho autoral de George Clooney, produzido em parceria com Leonardo di Caprio. Além disso, Clooney também escreve o roteiro, dirige e interpreta um dos papéis principais neste drama que tem como tema o maquiavelismo e a desonestidade envolvidos numa campanha presidencial. Ele faz o papel de um candidato democrata, cujo discurso assumidamente populista é cativante demais para ser verdadeiro. Se o nazista Joseph Goebbels afirmava que “uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”, o filme prova que, ao contrário, quando exaustivamente repetida, a mentira torna-se evidente. O protagonista da história, porém, não é o candidato, mas um de seus mais jovens e idealistas assessores, interpretado por Ryan Gosling (“Drive”, 2011). Durante a maior parte do filme, ele se coloca em conflito com o veterano e pragmático coordenador da campanha vivido pelo craque Phillip Seymour Hoffman (“O mestre”, 2012) e também com personagem de Paul Giamatti (“O ilusionista”, 2006) – o calejado assessor de outro político que disputa a indicação pelo partido para concorrer à presidência. Pode parecer uma reedição do clássico “A Grande Ilusão” de 1949 e refilmado em 2006 com Sean Penn, que aborda um assunto semelhante, mas este “Tudo pelo Poder” discute questões bem mais contemporâneas. Por exemplo, as alianças espúrias e as concessões aos adversários de ideologia, firmadas com o objetivo de chegar ao poder, como o título brasileiro já explicita. No entanto o título original “Os idos de março” sugere com mais precisão o cerne da trama. Essa expressão tem origem na Roma antiga e significa o dia 15 de março, no qual o demagogo e usurpador Julio Cesar foi assassinado pelos senadores, pondo fim a uma ditadura corrupta e de base populista na república romana. Em suma, o filme propõe uma identificação entre o personagem de Clooney e o astuto manipulador político que foi Julio Cesar. Na verdade, a premissa do roteiro é que os corruptos acabam caindo, mais cedo ou mais tarde, de um modo ou de outro.
**LEÕES E CORDEIROS** Lions for Lambs (EUA – 2007, 92 min. 14 anos) Direção de Robert Redford, com Tom Cruise, Meryl Streep, Peter Berg, Andrew Garfield, Michael Peña e Robert Redford. **SINOPSE** A partir de um mesmo momento histórico, isto é, a chamada Guerra do Afeganistão, o enredo permite observar diferentes formas de pensar a política: como ideologia (no caso de uma dupla de jovens combatentes alistados voluntariamente); como estratégia eleitoral ou de conquista do poder (no caso de um senador que pretende se candidatar à presidência da república); como objeto de análise jornalística (no caso de uma repórter que entrevista esse político) ou como matéria de pesquisa científica (no caso de um professor universitário e seu discípulo). **COMENTÁRIOS** Diretor bissexto, Robert Redford vem filmando de um modo cada vez mais sério e engajado em causas públicas. Depois deste, em 2010 ele faria o excelente “Conspiração americana” sobre um erro judiciário que ocorreu no julgamento dos assassinos do presidente Abraham Lincoln. Desde o ano 2000, Robert Redford estava sem dirigir filmes. Foi preciso um processo de convulsão política como o que os Estados Unidos vêm atravessando há décadas, para estimular o ator, militante do cinema independente, ativista de causas humanitárias e mecenas da criação cinematográfica a se colocar novamente na posição de diretor. Trata-se de uma obra abertamente intelectual, no sentido que o pioneiro Eisenstein atribuía a esse adjetivo. Um filme que não se ocupa apenas de coisas, porque discute ideias. Não se limita a relatar eventos, mas coloca em questão princípios éticos e morais. No roteiro escrito pelo mesmo Matthew Michael Carnahan de “Intrigas de Estado”, observa-se praticamente uma única ação desenvolvida em tempo real, um único conflito de posturas que ocorre ao mesmo tempo em três pontos diferentes: numa montanha do Afeganistão, no gabinete de um senador republicano e na sala de um professor de ciência política em Berkeley. Todos os personagens colocam seus pontos vista com lógica racionalidade, levando-nos a questionar a secular e discutível diferenciação entre as noções de “esquerda” e “direita”. A dualidade contida no título “Leões e Cordeiros” ultrapassa – em complexidade de conteúdos e simbolismo – essa tradicional dicotomia originada na Revolução Francesa do século XVIII, quando os representantes da nobreza e do “terceiro estado” escolheram os lugares que ocupariam no salão da Assembleia Nacional. Em cada um dos locais de filmagem, há sempre dois personagens em confronto: no Afeganistão, dois jovens universitários que se ofereceram como voluntários para lutar na guerra enfrentam um batalhão de talibãs que os prenderam numa emboscada. Em Washington, o senador Tom Cruise, candidato à presidência da republica, explica para a jornalista Meryl Streep uma nova estratégia militar contra o terrorismo. E na universidade, o professor Redford procura convencer seu melhor aluno a não abandonar o estudo de política. Todas essas dimensões se articulam num mesmo debate em que se defrontam todas as dúvidas e certezas que orientaram os líderes americanos e seus líderes, desde Thomas Jefferson. Uma das conclusões para esse jogo proposto por Redford é que também a cultura política pode conduzir a uma fuga intelectual da realidade.
**TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO** (Brasil – 2010, 118 min. 16 anos) Direção de José Padilha, com Wagner Moura, André Ramiro, Irandhir Santos, Maria Ribeiro e Milhem Cortaz Melhor filme no Festival de Havana; Melhor filme estrangeiro pela National Film Board (USA), **SINOPSE** A produção que alcançou a maior bilheteria da história do cinema brasileiro, superando 11 milhões de espectadores, é também um dos filmes que mais profundamente discute a realidade atual do país. Esse novo inimigo da democracia mencionado no título consiste na aliança entre a corrupção política e a chamada “banda podre” das instituições de governo dedicadas à segurança pública. A aceitação popular deve-se ao fato de apresentar essa questão no formato de um espetáculo de ação e suspense, temperado com boa dose de melodrama. **COMENTÁRIOS** O filme começa com um motim no presídio do Bangu no Rio de Janeiro. Os presos fazem reféns e o BOPE é chamado para intervir, com o coronel Nascimento (Wagner Moura) no comando da operação. Ele se posiciona numa sala em que todas as câmeras de vigilância do presídio são monitoradas e, de lá, comunica-se por rádio com o encarregado do ataque, que é seu pupilo, o capitão Matias (André Ramiro), enquanto vai solicitando ao operador de vídeo da penitenciária as precárias movimentações de ângulo e enquadramento que as tais câmeras podem realizar. Nessa posição que, aliás, foi escolhida para ilustrar a capa do livro e o pôster, é como se ele estivesse dirigindo um filme dentro do filme, manipulando atores e equipamento de som e imagem. Na linha de frente, os soldados já têm os amotinados sob a mira dos fuzis quando, por telefone, o Secretário de Segurança Pública ordena ao coronel: “Não quero outro Carandiru!”. Ele se refere à carnificina ocorrida no presídio paulista em 1992, durante uma rebelião. Numa outra leitura, entretanto, poderíamos ouvir aí a voz dos produtores advertindo o diretor José Padilha quanto à necessidade de se diferenciar claramente da premiada obra “Carandiru”, lançada em 2003. Se o primeiro da série “Tropa de Elite” chegou a ser acusado de desenhar uma apologia da violência policial, a proposta agora é apontar todos os integrantes de uma corrente perversa aqui chamada de “o sistema”. Ainda que a cúpula desse organismo seja formada pelos líderes da corrupção – tais como determinados policiais e políticos – todos nós fazemos parte dele. Isto é, traficantes e demais bandidos justificam a existência dos milicianos mantidos pela população, que julga ser por eles protegidos. Estes se organizam numa espécie de máfia que oferece sustentação e se apoia em autoridades públicas eleitas pelo povo. Quando não são cúmplices, por consumirem os produtos do tráfico, os cidadãos pecam por omissão ou incompetência. Assim, voltando ao motim que abre filme, quando o subalterno do Coronel Nascimento faz exatamente aquilo para o que fora treinado e mata diante das câmaras de TV o bandido que apontava uma arma para um refém, verifica-se uma primeira fratura no andamento da narrativa. Nascimento é afastado do comando do batalhão e assume a Subsecretaria de Inteligência do Estado do Rio de Janeiro, de onde passa a observar melhor e a interagir com o crime organizado. Por causa dele, o BOPE é militarmente fortalecido, a ponto de diminuir a força dos traficantes. Em consequência, os rendimentos destes e dos policiais por eles subornados diminuem sensivelmente. Como resultado, essa banda podre da polícia passa a ser o fundamento das milícias, ainda mais nocivas e violentas. Ao se associar com políticos e até com figuras da mídia, elas criam uma organização mais letal que aquela máfia mostrada nos filmes americanos. Por meio de um travelling aéreo da Esplanada dos Ministérios à Praça dos Três Poderes, Padilha generaliza a abrangência do seu conceito de “sistema”. E sublinha o enunciado com falas do personagem central, como “no Brasil, eleição é negócio”, ou “os políticos não dependem do sistema para ganhar dinheiro, mas para se eleger”. É inegável a sintonia entre essas imagens e o noticiário político atual, cada vez mais abundante em ternos de escândalos e falcatruas. Se “Tropa de Elite 2” fosse apenas isso, poderia até ser acusado de didático ou panfletário, mas tudo o que explica e denuncia se mostra integrado ao drama pessoal do Coronel Nascimento. O refém da primeira sequência (Irandhir Santos) é um militante em prol dos Direitos Humanos que, por coincidência, se casara com a sua ex-mulher. Portanto, o filho desse casal separado cruza a adolescência dividido entre dois modelos antagônicos de figura paterna. Essa estratégia narrativa perigosamente limítrofe ao melodrama pode não ser rigorosamente verossimilhante, mas tem a vantagem de aguçar os conflitos, fazendo-os convergir de maneira explosiva numa elipse de tempo que focaliza a situação alguns anos mais tarde: o filho já o despreza explicitamente, o padrasto se elege deputado e procura a imprensa para desmascarar o “sistema”. Só que este se acha plenamente consolidado − a ponto de usar o próprio BOPE como instrumento em seus projetos de poder e ampliação. Esses são os dados que Padilha e seus personagens lançam à mesa para provocar as incômodas emoções de um encerramento que nada tem de apaziguador para as nossas consciências.
**SOB A NÉVOA DA GUERRA** The Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. McNamara (EUA, 2004, 107 min. 12 anos) Direção de Errol Norris. Oscar de melhor documentário; Melhor documentário pela National Film Board (USA), **SINOPSE** Personagem central deste documentário, Robert McNamara foi secretário de Defesa dos governos John Kennedy e Lyndon Johnson. Presenciou, portanto, algumas das crises políticas internacionais mais agudas e cruciais do século XX. Com esse filme somos levados a encarar o fato de que na democracia contemporânea, gravíssimas decisões ficam perigosamente a cargo de poucos indivíduos. Neste caso, o protagonista revela como o mundo escapou de uma 3ª guerra mundial e nuclear “por mera sorte” e não por conta da racionalidade da diplomacia ou da política norte-americanas. **COMENTÁRIOS** Com trilha sonora original de Philip Glass, o filme ganhou o Oscar de melhor documentário. A expressão "névoa da guerra", popularizada por Carl von Clausewitz em seu livro Da Guerra(1832) indica a nuvem de incerteza que envolve um conflito complexo como é uma guerra, logo antes de eclodir. O filme mostra a trajetória de Robert McNamara, secretário de defesa dos Estados Unidos entre 1961 e 1968, por meio de imagens de arquivo, de gravações da Casa Branca e, principalmente, de uma entrevista com McNamara aos 85 anos de idade. A entrevista aborda a participação de McNamara como um dos Whiz Kids durante a Segunda Guerra Mundial e como presidente da Ford. O destaque, porém, é para o seu envolvimento na Guerra do Vietnam, enquanto secretário de defesa dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson. Dessa época, são mostrados impressionantes trechos de gravações de reuniões secretas no salão oval da Casa Branca. Durante uma palestra na universidade de Berkeley na California, Morris disse que teve inspiração para criar o filme após ler o livro de 2001 escrito por McNamara Wilson's Ghost: Reducing the Risk of Conflict, Killing, and Catastrophe in the 21st Century. (“Reduzindo o risco de conflito, matança e catástrofe no século 21”) A ideia de organizar o filme em “11 lições” se originou do livro de McNamara In Retrospect: The Tragedy and Lessons of Vietnam, de 1996 (“Em retrospecto: a tragédia e as lições do Vietnam”). Morris estruturou o filme em função das lições que McNamara menciona durante aquela entrevista, que durou mais de 20 horas. Essas lições atribuem uma estrutura a “Sob a névoa da guerra”. Elas, no entanto, não foram explicitamente criadas por McNamara e, após a conclusão do filme, McNamara respondeu a Morris complementando as 11 lições do filme com outras 10 lições escritas por ele próprio. McNamara conta como se destacou na escola e a sua habilidade para cálculos e mensurações estatísticas. De como graças a isso ele e a equipe de calculistas sob o comando do Major-General Curtis LeMay melhoraram a eficiência do bombardeio ao Japão durante a IIª Guerra Mundial, calculando uma melhor altura de voo para o lançamento das bombas incendiárias que em 1945 devastaram Tóquio e outras cidades. Depois da guerra McNamara foi para a presidência da Ford, onde usou seus conhecimentos matemáticos para melhorar o desempenho da produção e das vendas da companhia. Entrou para o governo no posto de Secretário da Defesa em atenção a um convite do presidente Kennedy. Dessa época McNamara fala da crise com Cuba, no início dos anos de 1960, e afirma que Fidel Castro lhe confidenciara, décadas depois, que já havia mísseis atômicos na ilha, não detectados pelos americanos. Fala também sobre a Guerra do Vietnã e da sua continuidade no poder, mantido pelo presidente Lyndon Johnson, quando então foi criticado e destituído do posto de Secretário da Defesa.
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